LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
A Viva Sobral, de Machado de Assis


Edio de referncia: Contos completos de Machado de Assis 
Publicado originalmente em A Estao 1884 

CAPITULO PRIMEIRO 

 Explico-me.
 Mas explica-te refrescando a goela. Queres um sorvete? V, dois sorvetes. Traga dois
sorvetes... Refresquemo-nos, que realmente o calor est insuportvel. Estiveste em
Petrpolis.
 No.
 Nem eu.
 Estive no Pati do Alferes, imagina por qu?
 No posso.
 Vou...
 Acaba.
 Vou casar.
Cesrio deixou cair o queixo de assombro, enquanto o Brando saboreava, olhando para
ele, o gosto de ter dado uma novidade grossa. Vieram os sorvetes, sem que o primeiro
sasse da posio em que a notcia o deixou; era evidente que no lhe dava crdito.
 Casar? repetiu ele afinal, e o Brando respondeu-lhe com a cabea que sim, que ia
casar. No, no,  impossvel.
Estou que o leitor no sente a mesma incredulidade, desde que considera que o
casamento  a tela da vida, e que toda a gente casa, assim como toda a gente morre. Se
alguma coisa o enche de assombro  o assombro de Cesrio. Tratemos de explic-lo em
cinco ou seis linhas.
Viviam juntos esses dois rapazes desde os onze anos, e mais intimamente desde os
dezesseis. Contavam agora vinte e oito. Um era empregado no comrcio, outro da
alfndega. Tinham uma parte da vida comum, e comuns os sentimentos. Assim  que
ambos faziam do casamento a mais deplorvel idia, com ostentao, com excesso, e
para afirm-lo, viviam juntos a mesma vida solta. No s entre eles deixara de haver
segredo, mas at comeava a ser impossvel que o houvesse, desde que ambos davam

os mesmos passos, de um modo unssono. Comea a entender-se o espanto do Cesrio. 

 D-me a tua palavra que no ests brincando? 
 Conforme. 
 Ah! 
 Quando eu digo que vou casar, no quero dizer que tenho a dama pedida; quero dizer 
que o namoro est a caminho, e que desta vez  srio. Resta adivinhar quem . 
 No sei. 
 E foste tu mesmo que me levaste l. 
 Eu? 
  a Sobral. 
 A viva? 
 Sim, a Candinha. 
 Mas...? 
Brando contou tudo ao amigo. Cerca de algumas semanas antes, Cesrio levara-o  
casa de um amigo do patro, um Viegas, comerciante tambm, para jogar o voltarete; e 
ali acharam, pouco antes chegada do Norte, uma recente viva, D. Candinha Sobral. A 
viva era bonita, afvel, dispondo de uns olhos que os dois concordaram em achar 
singulares. Os olhos, porm, eram o menos. O mais era a reputao de mau gnio que 
esta moa trazia. Disseram que ela matara o marido com desgostos, caprichos, 
exigncias; que era um esprito absoluto, absorvente, capaz de deitar fogo aos quatro 
cantos de um imprio para aquecer uma xcara de ch. E, como sempre acontece, ambos 
acharam que, a despeito das maneiras, lia-se-lhe isso mesmo no rosto; Cesrio no 
gostara de um certo jeito da boca, e o Brando notara-lhe nas narinas o indcio da teima e 
da perversidade. Duas semanas depois tornaram a encontrar-se os trs, conversaram, e 
a opinio radicou-se. Eles chegaram mesmo  familiaridade da expresso:  m rs, 
alma de poucos amigos, etc. 
Agora entende-se, creio eu, o espanto do amigo Cesrio, no menos que o prazer do 
Brando em dar-lhe a notcia. Entende-se, portanto, que s comeassem a tomar os 
sorvetes para no v-los derretidos, sem nenhum deles saber o que estava fazendo. 
 Juro que h quinze dias no era capaz de cuidar nisto, continuava o Brando; mas os 
dois ltimos encontros, principalmente o de segunda-feira... No te digo nada... Creio que 
acabo casando. 
 Ah! crs! 
  um modo de falar,  certo que acabo. 
Cesrio acabou o sorvete, engoliu um clice de cognac, e fitou o amigo, que raspava o 
copo, amorosamente. Depois fez um cigarro, acendeu-o, puxou duas ou trs fumaas, e 

disse ao Brando que ainda esperava v-lo recuar; em todo caso, aconselhava-lhe que 
no publicasse desde j o plano; esperasse algum tempo. Talvez viesse a recuar... 

 No, interrompeu Brando com energia. 
 Como, no? 
 No recuo. 
Cesrio levantou os ombros. 
 Achas que fao mal? pergunta o outro. 
 Acho. 
 Por qu? 
 No me perguntes por qu. 
 Ao contrrio, pergunto e insisto. Opes-te por causa de ser casamento. 
 Em primeiro lugar. 
Brando sorriu. 
 E por causa da noiva, concluiu ele. J esperava por isso; ests ento com a opinio 
que ambos demos logo que ela chegou da provncia? Enganas-te. Tambm eu estava; 
mas mudei... 
 E depois, continuou Cesrio, falo por um pouco de egosmo; vou perder-te... 
 No. 
 Sim e sim. Ora tu!... Mas como foi isso? 
Brando contou os pormenores do negcio; exps minuciosamente todos os seus 
sentimentos. No a pedira ainda, nem havia tempo para tanto; a prpria resoluo no 
estava formulada. Mas tinha por certo o casamento. Naturalmente, louvou as qualidades 
da namorada, sem convencer ao amigo, que, alis, entendeu no insistir na opinio e 
guard-la consigo. 
 So simpatias, dizia ele. 
Saram depois de longo tempo de conversao, e separaram-se na esquina. Cesrio mal 
podia crer que o mesmo homem, que antipatizara com a viva e dissera dela tantas 
coisas e to grotescas, quinze dias depois estivesse apaixonado ao ponto de casar. Puro 
mistrio! E resolvia o caso na cabea, e no achava explicao, no se tratando de um 
crianola, nem de uma descomunal beleza. Tudo por querer achar,  fora, uma 
explicao; se no a procurasse, dava com ela, que era justamente nenhuma, coisa 
nenhuma. 
CAPITULO II 

Emendemos o Brando. Contou ele que os dois ltimos encontros com a viva, aqui na
corte,  que lhe deram a sensao do amor; mas a verdade pura  que a sensao s o



tomou inteiramente no Pati do Alferes, de onde ele acaba de chegar. Antes disso, podia 
ficar um pouco lisonjeado das maneiras dela, e ter mesmo alguns pensamentos; mas o 
que se chama sensao amorosa no a teve antes. Foi ali que ele mudou de opinio a 
respeito dela, e se deixou cair nas graas de uma dama, que diziam ter matado o marido 
com desgostos. 
A viva Sobral no tinha menos de vinte e sete anos nem mais de trinta; ponhamos vinte 
e oito. J vimos o que eram os olhos;  podiam ser singulares, como eles diziam, mas 
eram tambm bonitos. Vimos ainda um certo jeito da boca, mal aceito ao Cesrio, 
enquanto as narinas o eram ao Brando, que achou nelas o indcio da teima e da 
perversidade. Resta mostrar a estatura, que era muito elegante, e as mos, que nunca 
estavam paradas. No baile no lhe notou o Brando esta ltima circunstncia; mas no 
Pati do Alferes, na casa da prima, familiarmente e a gosto, achou que ela movia as mos 
sempre, sempre, sempre. S no atinou com a causa, se era uma necessidade, um 
sestro, ou uma inteno de mostr-las, por serem lindas. 
No terceiro dia, comeou o Brando a perguntar onde estava a maldade do gnio de D. 
Candinha. No achava nada que pudesse dar indcio dela; via-a alegre, dada, 
conversada, ouvindo as coisas com muita pacincia, e contando anedotas do Norte com 
muita graa. No quarto dia, os olhos de ambos andaram juntos, no se sabendo 
unicamente se foram os dele que procuraram os dela, ou vice-versa; mas andaram juntos. 
De noite, na cama, o Brando jurava a si mesmo que era tudo calnia, e que a viva tinha 
mais de anjo que de diabo. Dormiu tarde e mal. Sonhou que um anjo vinha ter com ele e 
lhe pedia para trepar ao cu; trazia a cara da viva. Ele aceitou o convite; a meio 
caminho, o anjo pegou das asas e cravou-as na cabea,  laia de pontas, e carregou-o 
para o inferno. Brando acordou transpirando muito. De manh, perguntou a si mesmo: 

 Ser um aviso? 
Evitou os olhos dela, durante as primeiras horas do dia; ela, que o percebeu, recolheu-se 
ao quarto e no apareceu antes do jantar. Brando estava desesperado, e deu todos os 
sinais que podiam exprimir o arrependimento e a splica do perdo. D. Candinha, que era 
uma perfeio, no fez caso dele at  sobremesa;  sobremesa comeou a mostrar que 
podia perdoar, mas ainda assim o resto do dia no foi como o anterior. Brando deu-se a 
todos os diabos. Chamou-se ridculo. Um sonho? Quem diabo acredita em sonhos? 
No dia seguinte tratou de recuperar o perdido, que no era muito, como vimos, tosomente alguns olhares; alcanou-o para a noite. No outro estavam as coisas 
restabelecidas. Ele lembrou-se ento que, durante as horas de frieza, notara nela o mau 
jeito da boca, o tal, o que lhe dava indcio da perversidade da viva; mas to depressa o 
lembrou, como rejeitou a observao. Antes era um aviso, passara a ser uma 

oportunidade.
Em suma, voltou no princpio da seguinte semana, inteiramente namorado, posto sem
nenhuma declarao de parte a parte. Ela pareceu-lhe ficar saudosa. Brando chegou a
lembrar-se que a mo dela,  despedida, estava um pouco trmula; mas, como a dele
tambm tremia, no se pode afirmar nada.
S isto. No havia mais do que isto, no dia em que ele referiu ao Cesrio que ia casar.
Que no pensava seno no casamento, era verdade. D. Candinha voltou para a corte da
a duas semanas, e ele estava ansioso por v-la, para lhe dizer tudo, tudo, e pedi-la, e
lev-la  igreja. Chegou a pensar no padrinho: seria o inspetor da alfndega.
Na alfndega, notaram-lhe os companheiros um certo ar distrado, e s vezes, superior;
mas ele no disse nada a ningum. Cesrio era o confidente nico, e antes no fosse
nico; ele procurava-o todos os dias para lhe falar da mesma coisa, com as mesmas
palavras, e inflexes. Um dia, dois dias, trs dias, v; mas sete, mas quinze, mas todos!
Cesrio confessava-lhe, rindo, que era demais.


 Realmente, Brando, tu ests que pareces um namorado de vinte anos... 
 O amor nunca  mais velho, redargiu o outro; e, depois de fazer um cigarro, puxar 
duas fumaas, e deix-lo apagar, continuava a repetio das mesmas coisas e palavras, 
com as mesmssimas inflexes. 
CAPITULO III 

Vamos e venhamos: a viva gostava um pouco do Brando; no digo muito, digo um 
pouco, e talvez muito pouco. No lhe parecia grande coisa, mas sempre era mais que 
nada. Ele fazia-lhe amiudadas visitas e olhava muito para ela; mas, como era tmido, no 
lhe dizia nada, no chegava a planear uma linha. 

 Em que ponto vamos, em suma? Perguntava-lhe o Cesrio um dia, fatigado de s ouvir
entusiasmos.
 Vamos devagar.
 Devagar?
 Mas com segurana.
Um dia recebeu Cesrio um convite da viva para l ir a uma reunio familiar: era
lembrana do Brando, que foi ter com ele e pediu-lhe instantemente que no faltasse.
Cesrio sacrificou o teatro nessa noite, e foi. A reunio esteve melhor do que ele
esperava; divertiu-se muito. Na rua disse ele ao amigo:
 Agora, se me permites franqueza, vou chamar-te um nome feio.
 Chama.
 Tu s um palerma.

 Viste como ela olhava para mim?
 Vi, sim, e por isso mesmo  que acho que ests botando dinheiro  rua. Pois uma
pessoa assim disposta... Realmente s um bobo.
Brando tirou o chapu e coou a cabea.
 Para falar a verdade, eu mesmo j tenho dito essas coisas, mas no sei que acho em
mim, acanho-me, no me atrevo...
 Justamente; um palerma.
Andaram ainda alguns minutos calados.
 E no te parece esplndida? perguntou o Brando.
 No, isso no; mais bonita do que a princpio,  verdade; fez-me melhor impresso;
esplndida  demais.
Quinze dias depois, viu-a o Cesrio em casa de terceiro, e pareceu-lhe que ainda era
melhor. Da comeou a freqentar a casa, a pretexto de acompanhar o outro, e ajud-lo,
mas realmente porque comeava a olh-la com olhos menos desinteressados. J aturava
com pacincia as longas confisses do amigo; chegava mesmo a procur-las.
D. Candinha percebeu, em pouco tempo, que em vez de um, tinha dois adoradores. No
era motivo de pr luto ou deitar fogo  casa; parece mesmo que era caso de vestir galas;
e a rigor, se alguma falha havia, era que eles fossem dois, e no trs ou quatro. Para
conservar os dois, D. Candinha usou de um velho processo: dividindo com o segundo as
esperanas do primeiro, e ambos ficavam entusiasmados. Verdade  que o Cesrio,
posto no fosse to valente, como dizia, era muito mais que o Brando. De maneira que,
ao cabo de algumas dzias de olhares, apertou-lhe a mo com muito calor. Ela no a
apertou de igual modo, mas tambm no se deu por zangada, nem por achada.
Continuou a olhar para ele. Mentalmente, comparava-os:
Um dia o Brando descobriu um olhar trocado entre o amigo e a viva. Naturalmente ficou
desconsolado, mas no disse nada; esperou. Da a dias notou mais dois olhares, e
passou mal a noite, dormiu tarde e mal; sonhou que matara ao amigo. Teve a
ingenuidade de cont-lo a este, que riu muito, e disse-lhe que fosse tomar juzo.
 Voc tem coisas! Pois bem; somos concordes nisto:  deixo de voltar  casa dela...
 Isso nunca!
 Ento que queres?
 Quero que me digas, francamente, se gostas dela, e se vocs se namoram.
Cesrio declarou-lhe que era uma simples fantasia dele, e continuou a namorar a viva, e
o Brando tambm, e ela aos dois, todos com a maior unanimidade.
Naturalmente as desconfianas reviveram, e assim as explicaes, e comearam os
azedumes e as brigas. Uma noite, ceando os dois, de volta da casa dela, estiveram a

ponto de brigar formalmente. Mais tarde separaram-se por dias; mas como o Cesrio teve 
de ir a Minas, o outro reconciliou-se com ele  volta, e dessa vez no instou para que 
tornasse a freqentar a casa da viva. Esta  que lhe mandou convite para outra reunio; 
e tal foi o princpio de novas contendas. 
As aes de ambos continuavam no mesmo p. A viva distribua as finezas com 
igualdade prodigiosa, e o Cesrio comeava a achar que a complacncia para com o 
outro era longa demais. 
Nisto apareceu no horizonte uma pequenina mancha branca; era algum navio que se 
aproximava com as velas abertas. Era navio e de alto bordo;  um vivo, mdico, ainda 
conservado, que entrou a cortejar a viva. Chamava-se Joo Lopes. J ento o Cesrio 
tinha arriscado uma carta, e mesmo duas, sem obter resposta. A viva foi passar alguns 
dias fora, depois da segunda; quando voltou, recebeu terceira, em que o Cesrio lhe dizia 
as coisas mais ternas e splices. Esta carta deu-lha em mo. 

 Espero que me no conservar mais tempo na incerteza em que vivo. Peo-lhe que 
releia as minhas cartas... 
 No as li. 
 Nenhuma? 
 Quatro palavras da primeira apenas. Imaginei o resto e imaginei a segunda. 
Cesrio refletiu alguns instantes: depois disse com muita discrio: 
 Bem; no lhe pergunto os motivos, porque sei que me ho de desenganar; mas eu no 
quero ser desenganado. Peo-lhe uma s coisa. 
 Pea. 
 Peo-lhe que leia esta terceira carta, disse ele, tirando a carta do bolso; aqui est tudo 
o que estava nas outras. 
 No... no... 
 Perdo; pedi-lhe isto,  um favor ltimo; juro que no tornarei mais. 
D. Candinha continuou a recusar; ele deixou a carta no dunkerque, cumprimentou-a e 
saiu. A viva no desgostou de ver a obstinao do rapaz, teve curiosidade de ler o papel, 
e achou que o podia fazer sem perigo. No transcrevo nada, por que eram as mesmas 
coisas de todas as cartas de igual gnero. D. Candinha resolveu dar-lhe resposta igual  
das primeiras, que era nenhuma. 
Cesrio teve o desengano verbal, trs dias depois, e atribuiu-o ao Brando. Este 
aproveitou a circunstncia de achar-se s para dar a batalha decisiva.  assim que ele 
chamava a todas as escaramuas. Escreveu-lhe uma carta a que ela respondeu deste 
modo: 
Devolvo o bilhete que me entregou ontem, por engano, e desculpe se li as primeiras 

palavras; afiano-lhe que no vi o resto. 
O pobre-diabo quase teve uma congesto. Meteu-se na cama trs dias, e levantou-se 
resolvido a voltar l; mas a viva tornara a sair da cidade Quatro meses depois casava ela 
com o mdico. Quanto ao Brando e o Cesrio, que estavam j brigados, nunca mais se 
falaram; criaram dio um ao outro, dio implacvel e mortal. O triste  que ambos 
comearam por no gostar da mesma mulher, como o leitor sabe, se se lembra do que 
leu. 

Ncleo de Pesquisas em Informtica, Literatura e Lingstica 


